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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Arroz, feijão, saúde, calor e ela - conto de Cynthia Magluta

Como seria uma greve de bebês que não receberiam o alimento adequado no berçario?

Confira este conto  inédito, criado na Oficina Literária TextoTerritório/IFF Artesania de Textos, Invenção de Parentalidades.

Foto Ana Marques

Aí! Que frio!

Porque foram me tirar de lá? 

Ouvia sempre essa voz, cantando, falando comigo. 

Mão quentinha, gostoso. 

Porque me tiraram de perto dela?

Cansado.

***
Quanta luz! 

Pelo menos nessa caixa está quentinho, mas seco. Até que gosto, mas é bem mais duro. Quanta coisa grudada em mim, difícil me mexer. Muitas caixas com bebês, mão de borracha por todo lado e cadê ela? Acho que aquela garota está falando comigo. Ah, acho que entendi, quer saber como estou, se o frio já passou? 

- Melhor. Mas estou com uma fraqueza. Sabe da onde vem?

- Quem mandou nascer no sábado de tarde? 

- Por que? Tem diferença?

- Claro que sim. Você vai perceber que alguns dias que tem mais gente, são os dias de semana, aí vem dois dias diferentes. Final de semana. Quando você nasce nestes dias, não te dão soro de comida até segunda-feira lá para o meio do dia, aí você vai ficando fraco. Muita força nessa hora.

- E a gente não pode fazer nada?

A garota riu tanto que dormiu. 

O garoto do outro lado era maior que nós dois e acompanhou nossa conversa. Gostou da ideia. Falava com muita revolta, sabia bem como deveria ser. Mais comida, menos agulhadas, futucações e mais tempo, muito mais tempo com nossas mães. Mãe. Voz que canta. Mão quentinha. Os outros mais longe de nós decidem entrar na conversa, também querem lutar. Engraçado que os mão de borracha não percebam o rebuliço. Tomo coragem.

- E o que vamos aprontar? 

- Chorar todo mundo junto!

Muitos aprovam. Senti que gosto de organizar, aí falei: vamos chorar juntos e quando 

- Aí cara, eles se chamam médicos, enfermeiros e outros nomes. 

Agradeço e continuo na organização da estratégia. 

- Quando eles vierem ver o que está acontecendo, paramos todos juntos, aí choramos de novo! Tudo certo? Todos aprovaram. 

- Vamos lá, galera!

Choramos e choramos. Pernas chutando o ar e apitos por todo lado. Fiquei apagado por não sei por quanto tempo. Ela chegou, seu toque me fez super bem. Cantou. Ficamos juntos um bom tempo conversando. Queria me pegar, não deixaram. Ainda estava meio tonto e ouço o garoto maior.

- Ótimo plano, chefe, só que não. 

- Com certeza, deu para falar com esforço. Estou apagando de novo. E ela se foi. Pena. 

Acordo assustado, tomo coragem e volto a agitar a galera.

- Vamos gente. Vamos achar outra coisa. Bora pensar numa parada.

- Vamos fazer xixi na mão deles! 

- Isso só dá para os garotos, disse uma garotinha de rosto magro. Acho que podemos segurar na mão deles, fazer com que eles olhem para nós.

- Não, nada disso, vamos morder.

- Oh iluminado, morder como? Não temos dentes.

Retomo a liderança.

- Bora fazer xixi neles. 

- Bora. 

Todos reclamavam de como era difícil guardar o xixi. Alguns paravam para não cair no sono. Os aparelhos disparavam com a agitação. Percebi que os médicos, enfermeiros não entendiam nada.
Exausto, outra soneca.

Ela veio de novo. Aquela mão quentinha só podia me tocar. Tremíamos um pouco, sei lá por que.  Ficamos juntos um bom tempo. Veio o papai, eles se abraçaram.  Queriam me pegar, não deixaram. Ficaram falando com eles. Os dois me tocaram. Dormi.

Cynthia Magluta é autora TextoTerritório


sexta-feira, 9 de abril de 2021

Anéis de cinza, de Alejandra Pizarnik na voz de Cynthia Magluta

Começou essa semana a leitura do livro O que ela sussurra, de Noemi Jaffe, em nosso Grupo de Leitura.

 

Ouça, na voz de nossa autora Cynthia Magluta, o fragmento do poema "Anéis de Cinza", da poeta argentina Alejandra Pizarnik, citado na epígrafe do livro, e leia-o, na íntegra, aqui no Blog.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

"Arroz, Feijão, Saúde, Calor e Ela", conto de Cynthia Magluta

Arroz, Feijão, Saúde, Calor e Ela 

Cynthia Magluta 


Ai, que frio! 

Porque foram me tirar de lá? 

Ouvia sempre essa voz, cantando, falando comigo. 

Mão quentinha, gostoso. 

Porque me tiraram de perto dela? 

Cansado. 

*  *  * 

Quanta luz! 

Pelo menos nessa caixa está quentinho, mas seco. Até que gosto, mas é bem mais duro. Quanta coisa grudada em mim, difícil me mexer. Muitas caixas com bebês, mão de borracha por todo lado e cadê ela? Acho que aquela garota está falando comigo. Ah, acho que entendi, quer saber como estou, se o frio já passou? 

- Melhor. Mas estou com uma fraqueza. Sabe de onde vem? 

- Quem mandou nascer no sábado de tarde? 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A bonequinha de pano, conto de Cynthia Magluta

A bonequinha de pano 

Cynthia Magluta

Bonecas de Mariana Bezerra. Visite o canal Minhas Artesanices

Sabrina bateu a porta fugindo de mais uma discussão com seus pais. Flávio e Martha mal se olhavam com medo de iniciarem uma briga. Martha começou a chorar e Flávio ainda gritava que o comportamento de Sabrina tinha apenas uma explicação, só podia ser droga, muita droga. O final de semana começava mal.

Foi procurar no meio das coisas da filha. Cego de raiva chutou o baú na entrada do quarto. Começou a remexer nas gavetas da velha cômoda e no guarda-roupa de duas portas abarrotado de vestidos, calças, blusas. Todas as peças organizadas por cor, roupas leves de verão, casacos de frio. As gavetas do armário com divisórias para melhor separar e acomodar as pequenas peças, meias, calcinhas. A raiva não impediu que Flávio admirasse a arrumação da filha. Pena. Tanta ordem parecia ser só para o quarto, porque ela não estudava, saía todos os dias e voltava tarde da noite, cada dia com um novo cara. Só podia ser droga. 

Convocatória

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