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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Poesia-resistência, Alfredo Bosi

Ontem o professor Alfredo Bosi, entrou para a lista das vítimas da Covid. Em sua homenagem, publicamos no Blog um trecho do seu livro O ser e o tempo da poesia.

É um texto que apresenta mais teoricamente um dos motivos pelos quais a Editora TextoTerritório acredita na publicação de poesia. 

Fazemos parte dessa luta que a poesia trava com o controle do pensamento. 

Não calamos a boca, ainda que, cada vez mais, os olhos estejam se fechando. 

www.academia.org.br
 

Poesia-resistência

A ideologia não aclara a realidade: mascara-a, desfocando a visão para certos ângulos mediante termos abstratos, clichês, slogans, ideias recebidas de outros contextos e legitimadas pelas forças em presença. O papel mais saliente da ideologia é o de cristalizar as divisões da sociedade, fazendo-as passar por naturais; depois, encobrir, pela escola e pela propaganda, o caráter opressivo das barreiras; por último, justificá-las sob nomes vinculantes como Progresso, Ordem, Nação, Desenvolvimento, Segurança, Planificação e até mesmo (por que não?) Revolução. A ideologia procura compor a imagem de uma pseudototalidade, que tem partes, justapostas ou simétricas (“cada coisa em seu lugar”, “cada macaco no seu galho”), mas que não admite nunca as contradições reais. A ideologia dominante não consegue ser, a rigor, nem empírica nem dialética. Não consegue ser empírica porque as leis do mercado e da burocracia desprezam a face do ser vivo singular. A ratio abstrata transformou o corpo e a cabeça de cada indivíduo em mão-de-obra sem nome nem rosto que pode ser substituída a qualquer hora. Das fontes da natureza fez matéria-prima; do fruto do trabalho fez mercadoria a ser trocada e consumida. Pela força mesma dessa abstração, que o capitalismo incha e reproduz a cada momento, a ideologia tampouco suporta o momento da negação com que o pensamento dialético exige que a “má positividade” seja superada.

Sob o peso desse aparelho mental não totalizante, mas totalitário, vergam opressos quase todos os gestos da vida social, da conversa cotidiana aos discursos dos ministros, das letras de música para jovens às legendas berrantes dos cartazes, do livro didático ao editorial da folha servida junto ao café da vítima confusa e mal amanhecida.

A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, "esta coleção de objetos de não amor" (Drummond). Resiste ao contínuo “harmonioso” pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia. 
 
Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes. (Ainda que nem sempre possa impedir de todo que um ou outro pseudovalor formal vigente - e, daí, obliquamente ideológico - venha a cruzar o seu jogo verbal.)

A luta é, às vezes, subterrânea, abafada, mas tende a subir à tona da consciência e acirrar-se porque crescem a olhos vistos as garras do domínio. Em termos quantitativos, nunca foram tão acachapantes o capital, a indústria do veneno e do supérfluo, a burocracia, o exército, a propaganda, os mil engenhos da concorrência e da persuasão. A ferida dói como nunca. Os seus lábios estão sempre abertos. Não os fechará quem feche os olhos.
 
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 168-170.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Começa o 3° módulo da Oficina de Criação TextoTerritório

Neste módulo, trabalho na oficina de literatura TextoTerritório se debruçará sobre a construção de personagem.

Ainda dá tempo de se inscrever! Clique aqui

 O trecho que citamos a seguir é de uma tese que aborda a possibilidade de uma narrativa sem personagens.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Poesia, filosofia e o mundo contemporâneo - Antonio Cicero

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor

Poesia, filosofia e o mundo contemporâneo

Antonio Cicero

Vivemos numa época que — com a Internet, os computadores, os celulares, os tablets etc. — experimenta o desenvolvimento de uma tecnologia que tem, entre outras coisas, o sentido manifesto de acelerar tanto a comunicação entre as pessoas quanto a aquisição, o processamento e a produção de informação. Seria, portanto, de esperar que, podendo fazer mais rapidamente o que fazíamos outrora, tivéssemos hoje à nossa disposição mais tempo livre. Ora, ocorre exatamente o oposto: quase todo mundo se queixa de não ter mais tempo para nada. Na verdade, o tempo livre parece ter encolhido muito.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Uma educação do olhar

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor


3 de maio

Oswald de Andrade

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi


Passe para o lado de quem vê

 François Maton (Trad. Alexandre Faria)

Vivemos de uma ilusão: a de ser uma pessoa separada de tudo.  É frustrante, é exaustivo, não estou obrigando você a dizer isso.  No entanto, só precisamos estar muito atentos ao que estamos realmente percebendo no momento para fazer essa ilusão cair em um estalo de dedos.  E então magicamente colocar as coisas em seus devidos lugares.  Alegria.  Para isso, antes de se voltar para o mundo como costuma fazer, volte-se para si mesmo desta vez. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

William Faulkner - parte 2

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor



William Faulkner. Mississipi (EUA), 1897 - 1962.


“Acho que o estilo é uma das ferramentas do ofício, e acho que qualquer pessoa que gasta muito tempo com seu estilo, desenvolvendo um estilo ou seguindo um estilo, provavelmente não tem muito a dizer, sabe disso e é medo disso, e então ele escreve um estilo, um tesouro maravilhoso.”

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

William Faulkner - parte 1

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor



William Faulkner. Mississipi (EUA), 1897 - 1962.


“Mantenha-o amador. Você não está escrevendo por dinheiro, mas por prazer. Isto devia ser divertido. E deve ser emocionante. Talvez não enquanto você escreve, mas depois que terminar, você deve sentir uma excitação, uma paixão. Isso não significa sentir-se orgulhoso, sentado lá regozijando-se com o que fez. Isso significa que você fez o seu melhor. Da próxima vez, vai ser melhor.”

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O conceito de ficção, de Juan José Saer

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor


O CONCEITO DE FICÇÃO

Juan José Saer

Jamais saberemos como realmente foi James Joyce. De Gorman a Ellmann, biógrafos oficiais do escritor, a diferença principal é meramente estilística: o que o primeiro transmite com veemência, o segundo o faz com um tom objetivo e circunspecto, o que dá ao relato uma maior ilusão de verdade. Porém, tanto as fontes do primeiro biógrafo quanto as do segundo, entrevistas e cartas, são, no mínimo, pouco seguras e lembram o relato-testemunho do “homem que viu o homem que viu o homem que viu o urso”, com o agravante de que na biografia mais fantasiosa, a de Gorman, o informante principal foi o próprio urso. Com exceção desta última condição, é óbvio que nem o escrúpulo nem a honestidade dos informantes podem ser postos em dúvida e nosso interesse deve orientar-se para as questões teóricas e metodológicas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A consciência das palavras, Elias Canetti

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor


Não pode ser próprio do poeta entregar a humanidade à morte. E com consternação que ele, que não se fecha a ninguém, percebe o poder crescente da morte em tantas pessoas. Mesmo que a todos pareça façanha inútil, o poeta vai pôr-se a sacudir esse poder e jamais, em hipótese alguma, capitulará, Seu orgulho consistirá em resistir aos mensageiros do nada, que se tornam cada vez mais numerosos na literatura, e em combatê-los com instrumentos diferentes daqueles que utilizam. Viverá segundo uma lei que é a sua própria, mas não talhada para ele.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Ler antes de escrever?

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor


"...um escritor, para mim, tem que ser primeiro, um leitor. Há escritores  que  escrevem  sem  ler  nada  e  depois  pensam  que fizeram coisas muito novas. Como leram pouco não podem saber que  milhares de escritores já fizeram aquilo. Os chineses têm um ditado  que  é  ao  mesmo  tempo  uma  maldição:  “não  te  atrevas  a escrever  um  livro  antes  de  ler  mil”,  parece-me  sensato."

Gonçalo M. Tavares

 

Entrevista a Joca Terron. 
In: Revista Entrelivros.Ed. 29, set. 2007. 


Trabalho braçal?

 Oficina de Escrita 

Uma curadoria de textos para
pensar o trabalho do escritor


"...escrever  romances  não  é  um  trabalho apropriado  para  pessoas  muito  inteligentes  e  de  mente  afiada. Naturalmente  é  necessário  certo  nível  de  esperteza,  cultura  e conhecimento para escrevê-los, e acho até que sou dotado de um nível mínimo desses fatores (...) é apenas uma opinião pessoal, mas acho  que,  basicamente,  escrever  romances  é  algo  bem  maçante.  Nesse  ato  não existe quase nenhum elemento de inteligência."

MURAKAMI, Haruki.
Romancista como vocação.
Trad. Eunice Suenaga.
São Paulo: Alfaguara, 2017.

Convocatória

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