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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Manuel, Oswaldo Martins

Nesta última postagem da série "Liberdade sempre", Oswaldo Martins apresenta-nos trecho inédito de um livro que está em gestação. Aqui, um Manuel (Bandeira?) circula  às voltas com a truculência de assassinos, mandantes e bajuladores em um ambiente irrespirável, seja pela tísica, pelo vírus ou pelas trevas.
 
Sanatorio Niños Tuberculosos Abandonado - Habitacion Siniestra
Foto: JorgeSO
 
 
 
Manuel ficara sem ar. Estava acordado. A perplexidade não lhe permitia fazer versos de guerra; a descendência do mundo terminaria como a saúde ameaçada por essa grande tísica que invadia seu olhar fatigado das terras que, inventadas, marcaram com o fogo, com o assassínio, com a truculência dos novos ditadores os espaços a serem tomados aos homens, subjugando-os até o limite da bajulação, uns; outros, até o da animalidade.

Manuel ficara sem ar. A aurora apagava-se, e ele guardava as mais puras lágrimas da aurora. Atonia. Não queria mais amar nem mais ser amado. Não queria mais combater nem mais ser soldado. Perplexidade nos olhos de Esmeralda, nos olhos de Manuel. O sonho tenebroso tomava sua forma, enxergava-o ali a um toque de mão, vívido, grotesco, como Joana, a rainha louca de Espanha. As mortes o acompanhariam sempre.

Manuel ficara sem ar. O sol estivera claro. Agora a alma anoitecia. Esmeralda! Era um grito perdido entre os cavalões que cercavam a praça, atiçavam, recolhiam as pobres gentes, os clóvis, os ciganos, os judeus, os homossexuais, os negros, os índios – os cavalinhos, cercados animais para o divertimento e a ilicitude destes tempos de treva e homens armados.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

A conta do cão I, Lúcio Autran

No feriado de hoje a postagem da série "Liberdade sempre" recebe a colaboração de Lúcio Autran neste primeiro poema de uma série, em que o "Cão" tem nome e endereço.

Poço Iniciático, Quinta da Regaleira, Sintra. Foto: Ivo Gomes

 

A conta do cão I 

E Heliogábalo, como rei, se encontra no melhor lugar possível para reduzir a multiplicidade humana, e por meio do sangue, da crueldade, da guerra, o que nos levaria até o sentimento de unidade.
(Antonin Artaud: Heliogábalo ou o Anarquista Coroado)


Parte dessa conta, Cão, é só tua, te pertence
de fato e de direito, e será cobrada por ofício,
por oficial, por pregão ou edital. E cada Real

que contraíste no balcão da morte, o crédito
de parte da colheita desta safra de angústias
te será cobrado com os juros do desespero.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Política e família, Alexandre Faria

No quarto texto da série "Liberdade sempre", Alexandre Faria nos oferece a lucidez dos que enxergam a tamanha desdita que se abate sobre a sociedade brasileira, às voltas com a pandemia e a ação genocida do Estado. Quando afirma que “não é fácil viver no Brasil hoje, sempre na iminência da própria morte e na certeza da morte alheia”, nos põe frente a frente com a perplexidade de viver sobre estes tempos de ódio.

Política e família

Em 6 de outubro de 2018, vésperas da eleição presidencial, na tentativa de demover alguns amigos e parentes de votar num genocida, montei algumas fotos do holocausto que ceifou a vida 6 milhões de judeus e postei essas imagens: 



É claro que os números não se equiparam ao que vemos hoje no Brasil, mas não consigo deixar de lembrar esse post. Não é fácil viver no Brasil hoje, sempre na iminência da própria morte e na certeza da morte alheia. Não a morte aleatória do acidente e da doença, mas a morte sistemática produzida pelo Estado. A necropolítica. Isso há muito não é novidade para os corpos negros e indígenas do Brasil. Para a minha geração de homem branco de formações europeia, é recorrente a referência à memória histórica de outras pestes associada à lembrança da guerra. Sim, sem as duas referências históricas não há como fechar um entendimento do que vivemos no Brasil. Bolsonaro não precisa de câmeras de gás porque já tem a pandemia. E nem de uma SS ou de um sistema de comunicação forte. Apenas aparece sistematicamente em sua própria rede social e em alguns canais que lhe dão visibilidade; nega e renega a possibilidade de governar a par dos mais óbvios e ululantes conhecimentos científicos: não há tratamento precoce e a única coisa que pode minimizar o avanço da contaminação é o distanciamento físico e o uso de equipamentos de proteção individual. Com a sua postura o presidente do Brasil vira objeto de chacota e repúdio mundial. Nega a vida e o faz, desde sua posição de líder, de forma que as pessoas se confundam, se exponham e adoeçam cada vez mais. E morram cada vez mais.

A conduta pública do presidente não é incoerente em relação às recomendações básicas dos profissionais de saúde. É voluntariamente contrária a todas as recomendações sãs e sanitárias, de caso pensado, pois seu projeto é o de um genocida.

Não tenho forças para dizer ou fazer nada. Não é fácil repetir o óbvio. Sinto um misto de raiva, medo e impotência. Assumo uma depressão, saio das redes, pois não enxergo nelas mais do que catarse da tragédia cotidiana. Silencio. E sinto uma saudade enorme do meu irmão, que se foi, com quem não poderei mais discutir sobre as complexas relações que obrigam a ficarem no mesmo grupo a família e a política.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

E vamos à previsão do tempo, Cesar Cardoso

Cesar Cardoso, que nos brindou esse mês com um belíssimo bate-papo ao lado de André Capilé, apresenta para a série "Liberdade sempre" esse instigante poema.

Cabeçalho da primeira página do Jornal do Brasil, 14/12/1968.



E vamos à previsão do tempo

há um dedo na janela
que diz não
um olho na feijoada
um grito na gaveta dos talheres
uma gravata enforcada no chuveiro
e em coro dizem não
há uma língua no bueiro
uma sombra no mausoléu
uma placenta no cinema
um cofre saltando do vigésimo andar
um céu de chumbo na rede de esgotos
um tumor no elefante do zoológico
e dizem e dizem e dizem
não

domingo, 18 de abril de 2021

Militarizar o País!? Jamais, Carlos Augusto Corrêa

A crônica dominical de Carlos Augusto Corrêa também incorpora, hoje, o tema Liberdade sempre, vamos à reflexão do cronista carioca.


Tiradentes, Candido Portinari. Foto por André Deak.
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda. No Salão de Atos.


Tenho, desde o início desse governo, dormido e acordado com uma ideia incômoda. A de que desejam que nosso país seja dominado por uma elite militar. Difícil imaginar de novo vivermos sob um silêncio social forçado. Não vivi o autoritarismo de 37. Porém, já adolescente, experimentei a triste ditadura de 64. Como sou filho de um pai democrata, aprendi a rejeitar toda forma de militarismo no poder.

Meu pai (uma vez já me referi a isso) falava baixo nomes como Hitler, Mussolini, Plínio Salgado pra que não me influenciasse por esses monstros da agressão ao homem. Foi o que fiz mais adiante com os nomes de medici, geisel, castelo branco e o restalho.

sábado, 17 de abril de 2021

Lobisomem, Márjori Corrêa Mendes

Márjori Mendes é uma autora que acompanhamos nas redes sociais há muito tempo. É incrível sua capacidade de construir narrativas fluentes, que extraem reflexões profundas e delicadas de cenas banais da vida cotidiana.

Com este "Lobisomem" ela nos conta a história de uma professora de inglês que se desdobrou para driblar a censura no colégio militar.

 
Imagem de Pezibear por Pixabay
 
De todas as experiências curiosas que o ser professora tem me proporcionado, trabalhar no Exército foi, de longe, a mais excêntrica. Lecionar em uma escola-quartel, tendo obrigações não apenas didáticas, como também bélicas, me rendeu histórias que vou levar comigo para o resto da vida. Das provas de tiro aos tombos de cara no chão na frente dos colegas de trabalho na corrida matinal obrigatória, passando também pelo dia em que uma perseguição policial caiu no meio do meu serviço e por aquela vez em que almocei ração humana no meio do mato depois de andar oito quilômetros com uma mochila pesada nas costas: se tem uma coisa que ficou depois da minha baixa foram os inúmeros casos inacreditáveis que tenho para contar.

Mas mais bizarro que tudo isso foi o contexto da minha vida em que esse momento se inseriu. Cansada de ser torturada psicologicamente no meu antigo emprego pela minha chefe abusiva que achava que, por me pagar um salário, era dona da minha vida e precisando de um pagamento digno, pois sustentava minha família praticamente sozinha depois que meu pai perdeu o emprego três anos antes e não conseguia encontrar mais nada devido à idade que já avançava, vi naquela seleção uma chance de pegar um fôlego antes de alçar novos voos. Ao mesmo tempo, começava o meu primeiro amor lésbico e, embora não fosse uma regra clara e escrita, sabia que ele não era bem-vindo ou visto naquele ambiente depois de ouvir, de mais de uma pessoa e em momentos completamente diferentes, coisas do tipo “ainda bem que não tem nenhuma sapatão aqui para dar em cima da gente” ou “tá vendo aquelas meninas ali? Elas n-a-m-o-r-a-m”. Como se tudo isso já não fosse o suficiente, o ano era 2018, eu via com crescente angústia e desespero aquele-que-não-deve-ser-nomeado ganhando popularidade rumo à presidência e, na condição de militar temporária que era lembrada a todo momento que poderia ser dispensada a qualquer hora já que o contrato era renovado anualmente, não me sentia à vontade ou livre para emitir nenhuma opinião sobre nada, nem nas conversas informais de trabalho, nem na internet e, confesso, às vezes nem em voz alta comigo mesma pois o medo de estar sendo vigiada era real.

Foram dias difíceis em que, para sobreviver, precisei da ajuda de uns remedinhos, pois não sendo livre para falar da minha vida pessoal – visto que muito dela incluía meu amor brejeiro – ou para gritar aos quatro cantos do mundo, para quem quisesse ouvir, o quanto repugnava Bolsonaro e tudo aquilo que ele dizia/representava, fui me calando. E de tanto me calar, já não cabia mais em mim e comecei a questionar qual era o sentido de ganhar aquele dinheiro se para isso eu precisava anular cada parte do meu ser que não se encaixava ali. Entre a cruz e a espada, fui tendo crises de ansiedade cada vez mais frequentes e passei a me enxergar como a própria prostituta pedagógica, vendendo minha voz e meus princípios por uma renda minimamente digna num país que parece sentir orgulho de desdenhar da educação.

Até o dia do Lobisomem.

domingo, 28 de março de 2021

Envie seu texto para Blog da TextoTerritório

Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.
(Art. 19 - Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Liberdade sempre

Nunca será tarde

Já circulam notícias preocupantes, no Brasil, de perseguição política aos direitos de expressão, em nome (sempre!) da "segurança nacional". Não estamos em 37, nem em 64 ou 68. Os tempos são outros, mas a vigilância pela liberdade de opinião e de expressão do pensamento não pode descansar. 
 
Novos tempos pedem novas armas. Apresente as suas.
 

Monumento à Liberdade - Torres Novas - Portugal
Foto: Vitor Oliveira (CC BY-SA 2.0)
  
Pode ser poema, conto, crônica, artigo, foto, charge, desde que seja inédito e enviado pelo próprio autor. O envio implica a concordância com a publicação no Blog da TextoTerritório, com  licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 4.0).

Envie sua participação para textoterritorio@gmail.com até 09/04/2021.
 
O material será selecionado e publicado no Blog até o dia 21 de abril de 2021, por ocasião do feriado de Tiradentes.


Convocatória

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