O poema "Canto obscuro das raízes", da poeta santomense Conceição Lima, transcende os espaços da origem e se universaliza. Na sua procura, pelos diversos pontos do planeta, reinventa o avô, figura emblemática da trama épica, que se perdeu e faz a voz lírica se desdobrar pelas personagens em que ele se metamorfoseia, desmanchando a linearidade das fronteiras e a sabedoria dos griots que se foram. Entre esses griots, a voz contemporânea de Alex Haley, autor do best-seller Raízes, que restaura em extensa pesquisa documental, a origem desse primeiro avo americano, Kunta Kinte. Fala-nos muito, no Brasil, esta voz lírica poderosa que revolve raízes num canto obscuro, principalmente porque nossa memória perdeu-se na fogueira que Rui Barbosa fez dos documentos da escravidão. Resta-nos, assim como no poema, a casa como injusto patrimônio de paredes de palha e sangue entrançadas.
Canto Obscuro
Em Libreville
não descobri a aldeia do meu primeiro avô.
Não que me tenha faltado, de Alex,
a visceral decisão.
Alex, obstinado primo
Alex, cidadão da Virgínia
que ao olvido dos arquivos
e à memória dos griots Mandinga
resgatou o caminho para Juffure,
a aldeia de Kunta Kinte -
seu último avô africano
primeiro na América.