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sábado, 3 de julho de 2021

Uma platéia vazia, Lúcio Autran

Vaso grego: Bacantes e Dioniso

 
“Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta”
Os Lusíadas – Canto I
Luís de Camões,

Semana passada, neste blog, Oswaldo Martins e Alexandre Faria escreveram um artigo da maior felicidade e urgência, a que deram o sugestivo título “A literatura contemporânea – de como a poesia deu no que deu”.

São vários os pontos que abordaram, e olhem que não foram todos os aspectos possíveis dessa discussão urgente, “o valor mais alto” camoniano, desenvolver cada um deles demandaria um espaço que não tenho e abusarei, porém, há dois ou três que gostaria de ecoar neste modesto artigo. Não no tom escolhido pelos autores, mas meio tom abaixo, como é do meu feitio e maneira de ser no mundo, dos quais me é impossível fugir.

Logo no início dão o primeiro cruzado: “na cena da poesia contemporânea, por exemplo, pululam casimirinhos em torno de neobilacs de araque. Todos parecem ter trocado o paletó no encosto das cadeiras vazias das repartições públicas dos ministérios mil pelas cátedras das faculdades de Letras do país”.
 
Há muito me ronda a convicção de que, se o empresariado brasileiro sempre mamou nas tetas da Viúva, seus escritores também não ficaram atrás, que, em boa parte, escreveram suas obras graças aos “paletós nos encostos das cadeiras vazias das repartições públicas” de um funcionalismo público de compadrio, como sói acontecer nestes tristes trópicos, o que, frise-se com todos os destaques, em nada ofusca a eventual qualidade desses escritores. Mas o que me chamou a atenção foi a coragem de adentrar no terreno minado das academias e na menção oportuníssima a uma literatura que ecoa “protestos que retroalimentam o status quo”

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Silêncio e paisagem, de Lúcio Autran

Lúcio Autran lê seu poema "Silêncio e paisagem", inédito feito a partir de fotos de Eduardo Moura compartilhadas por Oswaldo Martins.


Covid-19

Publicado por Eduardo Moura em Domingo, 29 de março de 2020

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Manto eminente, resenha de Lúcio Autran

MANTO EMINENTE – Oswaldo Martins e Arthur Bispo do Rosário – os aedos desencantadores das palavras – ou “os planos da arte”.

Lúcio Autran

(Resenha do livro manto, de oswaldo martins, publicada originalmente no Blog de Lúcio Autran, em 07/11/2019)
“a voz na falha das mãosos lenho-laçosos fios
os planos da arte”
sianinha – Oswaldo Martins

Ao menos para mim, é muito difícil fazer da loucura objeto da poesia, aliás, mais do que isso, difícil falar da loucura, poeticamente ou não. Tudo nesse assunto é estigma, até porque quem vivenciou alguma forma de... e aqui o problema se evidencia, como chamar a “loucura”? Doença mental, alienação? E seu sujeito, doido? Ou, carinhosamente, que por vezes é possível, principalmente nas lembranças mais remotas da infância, doidinho?

Melhor nomeá-lo assim do que apedrejá-lo ou dele rir, ou cuspir-lhe a face transtornada, pois a loucura nada tem de lírica, muito menos de divertida, ao contrário, ela dói, rasga de angústia seu portador e os que com ele convivem, pois a sociedade, se melhorou no trato com ele, foi muito pouco, e ainda está presente em nós, navega no nosso preconceito, a “Nau dos Insensatos”, o escondê-lo na vergonha dos segredos da família, medo talvez de que sobre nós recaia o fatal estigma, como certa vez arrisquei: “No fundo das grutas, esperando adormecerem / os filhos e os vizinhos, para saírem pelos fundos. / Como a nudez, é melhor escondê-los nas serras / de Barbacena, ouro podre do limite das grutas”.

É o medo de um estigma infelizmente ainda presente, pois quem, como dizia e as palavras me fizeram desviar, conviveu com alguma forma de loucura sabe como é tênue a membrana que separa a doença de uma suposta, e apenas suposta, “normalidade”, citoplasma mental.

Mas toda sinonímia é precária, senão impossível. Qual a abordagem possível da loucura, se mesmo a abordagem “científica”, médica, ainda padece de irremediáveis precariedade e desconhecimento, salvo, aberta e honestamente, confessar esses mesmos desconhecimento e precariedade?

Talvez a poesia seja a única forma possível, pois permite a desconstrução, permite a (in) significação, o (não)significado, o desprezo ao significante, a partir do estigma / enigma onde o encarceram.

Como reconstruir a linguagem dos loucos? E o chamemos assim, por estranho que pareça, pois ainda acho “louco” a palavra de menor força estigmatizante. Como nos aproximar de sua sintaxe, que sintaxe é essa e como se recria no nada?

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Mário Tavares e "O diário de um psicopata"

Resenha de Lucio Autran sobre o livro de Mário Tavares


Recebo, e só depois percebi que seria com grande alegria, pois, confesso, iniciei sua leitura com desconfiança, o livro de Mário Tavares, “O Diário de um Psicopata” (Editora Texto Território – 2014). O motivo da alegria conto abaixo, mas o fato é que quando recebo o livro de um bom poeta que tem o azar de viver no Brasil contemporâneo, na cena cultural que nos assola, me invade um enorme desânimo.
Porque a poesia é tão desprezada? Logo ela, que Cabral chamou um dia “laboratório da língua”. E já nem digo pelo mercado, que disso, mercado, não tem passado (“ah, não vende...”), embora esteja convencido de que tendo as editoras, por previsão do Constituinte originário (não é novidade, a de 67 já o previa), imunidade tributária, outro deveria ser seu dever, frise-se, dever jurídico: o de proteger a cultura, fomentá-la, e não somente lucrar com ela, mas sobretudo atentar para sua função social, outro dever jurídico/constitucional, não tenho dúvidas que a parcela que deixaram de recolher para os cofres públicos deveria reverter para a Cultura. Mas disso já tratei no jornal “Falando de Literatura”, de Fernanda Sampaio, além disso, é uma esperança, esse mercado já se aproxima da xepa, percebe-se pelo cheiro, e em breve pouco restará dessa carcaça, salvo para os urubus de costume.
Falo também da cena cultural, das resenhas nas folhas, pois de crítica não se trata, sempre orbitando em torno das mesmas editoras e da mesma ação entre amigos. Mas deixa isso de lado, afinal, não vale à pena azedar a leitura do belo livro de Mário, passemos às alegrias de encontrar um poeta de alta voltagem.

Convocatória

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