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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Resenha do livro "Poema da travessia", por

Publicado originalmente em:
http://kurumata.com.br/2019/12/13/bichos-na-travessia/

Bichos na travessia

Texto de Nonato Gurgel

13 de dezembro de 2019



Conheci a escrita de Ana Chiara no início do milênio. Seus livros Pedro Nava: um homem no limiar (2002) e Ensaios de possessão (2006), dentre outros textos em livros, revistas e jornais, sugeriam que aquela ensaística de ‘tom imaginário’ anunciava alguma ficção. Ana usava no ensaio procedimentos da ficção. Desde então, esperava este Poema da travessia (2019).

Enquanto esperava o livro, guardei num caderno de aulas de literatura o poema Madalena, publicado em jornal, no qual Ana relê a personagem trágica de Graciliano Ramos em São Bernardo. Começa assim o texto que estetiza a voz do culpado Paulo Honório:

Madalena, corujinha ensimesmada,
…
o ciúme monstro vadio
penetrou meus ossos, encharcou por dentro, virei calunga…
que estupidez, que porcaria
bichinho,
sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências…

Foi pensando nessa dicção oral de Madalena, que aguardei o livro lançado esta semana na UERJ. Poema da travessia é composto de 25 ‘cantos’, mais dois textos finais sem numeração. Tem ilustrações e posfácio do Artur de Vargas Giorgio, que ressalta na ‘performance’ da autora uma ‘arqueologia de si’, ‘uma espécie de escrita de si’. O volume abre com uma bela epígrafe do Baudrillard relacionando a viagem à ausência e ao corpo – dois temas que atravessam essa poética repleta de ‘mapa’ ‘passaporte’ ‘caderneta de viagem’ ‘trens noturnos’ e ‘aviso de trem’.


Travessia em si

Madalena não está no livro. Daquela dicção afetiva formatada em diminutivos (‘corujinha’, ‘bichinho’), quase nenhum eco. Poema da travessia é conciso, telegráfico. Suas linguagens verbais e não verbais remetem às formas breves, rasuras. Remetem à irreverência irônica, cortante, das poéticas modernas (Oswald de Andrade, Cacaso, Chico Alvim), e aos versos curtos, às vezes bruscos, como podemos ouvir no ‘canto’ XX dessa travessia de eco nietzschiano:

Terreno neutro
Desço aqui
Hoje

Estação sossego
Mapa aberto sobre os joelhos
Vejo estrangeiros na plataforma

Pensamentos em passos de pomba
Perturbam a espera
Sempre bom guardar um doce para depois
Como na autobiografia do Nietzsche, os bichos e sua fisiologia têm lugar nessa travessia. Os ‘pensamentos em passos de pomba’ rasuram a plenitude da lesma que, ao passar, deixava ‘um rastro prateado’. Além da pomba lê-se, nessa travessia, figurações do beija-flor, macaco, égua, cadela, galinha e lacraia, dentre outros. Nada daquela ‘corujinha’ que era a Madalena. Na travessia, lê-se uma lacraia deslocada. Lacraia pica, é predadora. Persegue insetos e animais pequenos.

Descobri que em cada segmento do corpo da lacraia existe um par de pernas, num total de pelo menos 15 pares. Daí tanto deslocamento, pensei, tanta perna pelo mundo, perna pela página. Para que tanta perna, meu deus, pergunta minha mente antiga viciada em anjos tortos, remate de males, citações sem aspas. Dessa matéria, a poeta compõe as ‘várias personas vampirizadas do texto alheio’, como lemos nos seus Ensaios de Possessão.

Desde os sertões do Guimarães Rosa e a música do Milton Nascimento, a palavra travessia transformou-se num signo poético-cultural que remete ao planeta Minas de onde vem Ana Chiara. Planeta barroco onde o exagero e a contradição moderna formatam o ‘gosto exagerado pelo real mais erradio’. Sua ‘travessia de través’ é feita pelas ‘veredas abertas’. Como na odisseia sertaneja do Riobaldo, essa é também uma ‘viagem no tempo’, tipo pé-na-estrada dizendo que ‘nada será como antes/… Precisa-se de algum amor’.

Citare, em latim, quer dizer por em movimento. E o que é a travessia senão uma ação que move, desloca? Desde o século passado, a gente aprendeu que o moderno é deslocado. Produzida ‘por deslocamentos mínimos’ (canto III), essa travessia poética inscreve modos de sobreviver, como no canto XII: ‘A lacraia sobrevive do intenso e lento deslocar-se’.

Entrevista de Marisa Loures com Oswaldo Martins na Tribuna de Minas

Publicado originalmente em:





Na íntegra a entrevista de Marisa Loures:

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A coisa pública, crônica de Carlos Augusto Corrêa

A Coisa Pública 

Carlos Augusto Corrêa 

(Publicado no Facebook em 22/10/2019)

Semana passada, no Blog da Texto Território, que, diga-se, tenho lido diariamente, vi notícia interessante. É que Alexandre Faria e Oswaldo Martins sugeriram que cronistas, contistas, romancistas e ensaístas enviassem pro Blog textos sob o título "A coisa pública". Vão fazer uma seleção e irão publicá-Los em torno de 15 de novembro. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Manto eminente, resenha de Lúcio Autran

MANTO EMINENTE – Oswaldo Martins e Arthur Bispo do Rosário – os aedos desencantadores das palavras – ou “os planos da arte”.

Lúcio Autran

(Resenha do livro manto, de oswaldo martins, publicada originalmente no Blog de Lúcio Autran, em 07/11/2019)
“a voz na falha das mãosos lenho-laçosos fios
os planos da arte”
sianinha – Oswaldo Martins

Ao menos para mim, é muito difícil fazer da loucura objeto da poesia, aliás, mais do que isso, difícil falar da loucura, poeticamente ou não. Tudo nesse assunto é estigma, até porque quem vivenciou alguma forma de... e aqui o problema se evidencia, como chamar a “loucura”? Doença mental, alienação? E seu sujeito, doido? Ou, carinhosamente, que por vezes é possível, principalmente nas lembranças mais remotas da infância, doidinho?

Melhor nomeá-lo assim do que apedrejá-lo ou dele rir, ou cuspir-lhe a face transtornada, pois a loucura nada tem de lírica, muito menos de divertida, ao contrário, ela dói, rasga de angústia seu portador e os que com ele convivem, pois a sociedade, se melhorou no trato com ele, foi muito pouco, e ainda está presente em nós, navega no nosso preconceito, a “Nau dos Insensatos”, o escondê-lo na vergonha dos segredos da família, medo talvez de que sobre nós recaia o fatal estigma, como certa vez arrisquei: “No fundo das grutas, esperando adormecerem / os filhos e os vizinhos, para saírem pelos fundos. / Como a nudez, é melhor escondê-los nas serras / de Barbacena, ouro podre do limite das grutas”.

É o medo de um estigma infelizmente ainda presente, pois quem, como dizia e as palavras me fizeram desviar, conviveu com alguma forma de loucura sabe como é tênue a membrana que separa a doença de uma suposta, e apenas suposta, “normalidade”, citoplasma mental.

Mas toda sinonímia é precária, senão impossível. Qual a abordagem possível da loucura, se mesmo a abordagem “científica”, médica, ainda padece de irremediáveis precariedade e desconhecimento, salvo, aberta e honestamente, confessar esses mesmos desconhecimento e precariedade?

Talvez a poesia seja a única forma possível, pois permite a desconstrução, permite a (in) significação, o (não)significado, o desprezo ao significante, a partir do estigma / enigma onde o encarceram.

Como reconstruir a linguagem dos loucos? E o chamemos assim, por estranho que pareça, pois ainda acho “louco” a palavra de menor força estigmatizante. Como nos aproximar de sua sintaxe, que sintaxe é essa e como se recria no nada?

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Hoje no Rio: Lançamento de "Uma espécie de cinema"


UMA ESPÉCIE DE CINEMA: ANTOLOGIA DE POEMAS PORTUGUESES E BRASILEIROS, publicado pela Editora Oficina Raquel.
Antologia organizada pela Celia Pedrosa (que estará na leitura), Franklin Alves Dassie, Joana Matos Frias, Luciana Di Leone, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo (Rosa Martelo).

Elesbão Ribeiro, participa dessa antologia com o poema "Cinemateca", do livro Estação Piedade (2013).







quarta-feira, 24 de abril de 2019

Mário Tavares e "O diário de um psicopata"

Resenha de Lucio Autran sobre o livro de Mário Tavares


Recebo, e só depois percebi que seria com grande alegria, pois, confesso, iniciei sua leitura com desconfiança, o livro de Mário Tavares, “O Diário de um Psicopata” (Editora Texto Território – 2014). O motivo da alegria conto abaixo, mas o fato é que quando recebo o livro de um bom poeta que tem o azar de viver no Brasil contemporâneo, na cena cultural que nos assola, me invade um enorme desânimo.
Porque a poesia é tão desprezada? Logo ela, que Cabral chamou um dia “laboratório da língua”. E já nem digo pelo mercado, que disso, mercado, não tem passado (“ah, não vende...”), embora esteja convencido de que tendo as editoras, por previsão do Constituinte originário (não é novidade, a de 67 já o previa), imunidade tributária, outro deveria ser seu dever, frise-se, dever jurídico: o de proteger a cultura, fomentá-la, e não somente lucrar com ela, mas sobretudo atentar para sua função social, outro dever jurídico/constitucional, não tenho dúvidas que a parcela que deixaram de recolher para os cofres públicos deveria reverter para a Cultura. Mas disso já tratei no jornal “Falando de Literatura”, de Fernanda Sampaio, além disso, é uma esperança, esse mercado já se aproxima da xepa, percebe-se pelo cheiro, e em breve pouco restará dessa carcaça, salvo para os urubus de costume.
Falo também da cena cultural, das resenhas nas folhas, pois de crítica não se trata, sempre orbitando em torno das mesmas editoras e da mesma ação entre amigos. Mas deixa isso de lado, afinal, não vale à pena azedar a leitura do belo livro de Mário, passemos às alegrias de encontrar um poeta de alta voltagem.

sábado, 25 de novembro de 2017

Conversa com o autor: Rute Gusmão e André Salviano

Publicado originalmente em:


André Salviano e Rute Gusmão são os convidados deste sábado (25) do programa Conversa com o Autor, na MEC AM 800 kHz

Conversa com o Autor
No AR em 25/11/2017 - 12:00



André Salviano é graduado em Letras pela UFRJ, com especialização em Literaturas Portuguesa e Africanas. Já teve textos publicados em algumas Antologias de prosa e poesia. Foi finalista do Prêmio UFF de Literatura de 2009 na categoria contos. Há dois anos participa do Coletivo Clube da Leitura. É técnico na COPPE desde 2003. Deu aulas de escrita criativa no Terapia da Palavra e também trabalha com revisão e edição de textos. “Amoridades” é seu primeiro livro.

Rute Gusmão atuou como artista plástica nas décadas de 1970 e 80, com exposições no Brasil e exterior. Publicou vários livros de artista, que integram acervos nacionais e estrangeiros. Autora dos livros de poesia “Moldura da pele” e “Sapatilha no descampado”. Movida pelo desejo de pensar o mundo – nele incluindo conflitos, lutas, preconceitos – Rute Gusmão, que tem formação também na área de políticas sociais, estreia em prosa com o livro “Contos de oficina”.

A mediação do programa é da jornalista Katy Navarro. Idealizado a partir de um projeto da Casa da Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, o programa apresenta dois autores a cada semana.

sábado, 4 de março de 2017

Conversa com o Autor com Claudia Chigres e Ozias Filho

Conversa com o Autor recebe Claudia Chigres e Ozias Filho
Escritores falam sobre seus mais recentes livros

Conversa com o Autor

Os escritores Claudia Chigres e Ozias Filho são os convidados do Conversa Com o Autor deste sábado (4), às 12h20, na MEC AM 800 kHz.


Claudia Chigres é escritora, professora e pesquisadora, graduada em Letras, mestre em História Social da Cultura e doutora em Literatura Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi jurada em diversos concursos. Atualmente, é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio e dos cursos de Especialização Latu Sensu Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo e Formação do Escritor, ambos da PUC-Rio. É autora do livro "Como Se" (Editora TextoTerritório, 2014) e organizadora do livro "164 - circular" (Editora TextoTerritório, 2015).

Ozias Filho é formado em Jornalismo e em Fotografia e pós-graduado em Edição e Novos Suportes Digitais. Foi o responsável pela Editora Vozes em Portugal no período de 1999 a 2011. Em 2005, lançou o livro "Páginas Despidas" pela Edições Pasárgada. Em 2010, foi um dos escritores da antologia de contos "Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai", das Edições Pasárgada, da qual é o fundador e editor. Em 2011, editou o livro "O relógio avariado de Deus". Em 2013, foi um dos integrantes da antologia de contos de ficção científica e do fantástico "Mensageiros das Estrelas", da Editora Fronteira do Caos (Porto, Portugal) com o conto "A Maratonista". No mesmo ano, publicou em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas o livro "Ar de Arestas". No final de 2014 lançou o livro de fotografia "Instagramo--‐te". Seu último lançamento foi o livro de poemas "Insulares". O livro "O relógio avariado de Deus" está sendo publicado no Brasil.

sábado, 17 de setembro de 2016

Conversa com o autor - Rádio EBC - Oswaldo Martins e Natan Barreto

Publicado originalmente em:
http://radios.ebc.com.br/armazem-cultural/edicao/2016-09/oswaldo-martins-e-natan-barreto-no-conversa-com-o-autor

Os escritores Oswaldo Martins e Natan Barreto são os convidados deste sábado (17) do programa Conversa com o Autor, na MEC AM 800 kHz.


 


Oswaldo Martins é poeta e professor de Literatura. É graduado em Letras pela PUC-Rio e fez mestrado em Literatura Brasileira pela UERJ. Desde o início dos anos 2000, Oswaldo Martins vem marcando sua presença na poesia contemporânea brasileira, com uma linguagem concisa e ao mesmo tempo ousada, com os livros "Desestudos" (2000); "Minimalhas do alheio" (2002); "Lucidez do oco" (2004); "Cosmologia do impreciso" (2008); "Língua nua" (2011); "Lapa" (2014) e "Manto" (2015). "Língua nua" foi feito em parceria com a escritora e artista plástica Elvira Vigna, que o ilustrou com 25 nus femininos e 25 masculinos que dialogam com os poemas do livro. "Lapa" saiu numa edição com fotos do bairro boêmio carioca. "Manto" é um conjunto de poemas criado a partir da vida e da obra de Arthur Bispo do Rosário.

Natan Barreto graduou-se em Interpretação Teatral pela UniRio e passou a morar na Europa. Hoje vive em Londres. É tradutor e intérprete formado pelo Institute of Linguists, e professor primário pela London South Bank University. Publicou os livros de poesia "Sob os telhados da noite" (1999) e "Esconderijos em papéis" (2007); "Quase-sonhos & Traduzido da noite" (2009), uma edição bilíngue – francês/português – dos poemas de Jean-Joseph Rabearivelo, escritor de Madagascar; e a biografia "Entre mangueiras: a vida de Eunice Palma" (2011). Em Londres, coordenou por alguns anos o projeto Encontros Poéticos, apresentando a vida e obra de escritores brasileiros na embaixada do Brasil, no museu de Londres, nas universidades de Queen Mary e Nottingham, e no Royal Court Theatre. Foi o único brasileiro selecionado, ao lado de quinze poetas ingleses, para escrever poesias inspiradas em fotografias de Sebastião Salgado, que acompanharam a exposição “Migrations”.

Idealizado a partir de um projeto da Casa de Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, o programa apresenta dois autores a cada semana. A mediação do programa é da jornalista Katy Navarro, da Casa de Leitura.

sábado, 14 de maio de 2016

Conversa com o Autor - Alexandre Faria e Clarisse Fukelman

Publicado originalmente em:
http://radios.ebc.com.br/conversa-com-o-autor/edicao/2016-05/clarisse-fukelman-e-alexandre-faria-no-conversa-com-o-autor

Clarisse Fukelman e Alexandre Faria no Conversa com o Autor neste sábado (14)

Os escritores Clarisse Fukelman e Alexandre Faria são os convidados



Clarisse Fukelman é Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora no Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, idealizadora da pós-graduação Leitura, teoria e prática (PUC-Rio) e curadora de diversos eventos sobre literatura e sobre temas contemporâneos. Pesquisadora para projetos educativos, organizou os livros "Passeios na Zona Norte", "Conto em quatro tempos" e "Eu assino embaixo: biografia, memória e cultura". "A escrita do eu: biografia, memória e cultura” (EdUERJ). Vinte dois autores em textos inéditos discutem o fenômeno biografia, sob coordenação de Clarisse Fukelman, uma das autoras também.

Alexandre Faria é escritor é professor de literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou o livro de poesias Lágrima palhaça, Os ensaios Literatura de subtração, a ficção Anacrônicas, e Urânia, poema-postal e curta-metragem. Organizou os livros Modos da margem - figurações da marginalidade na literatura brasileira com João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio e Outra – poesia produzida no sarau de Manguinhos e Anos 70 – poesia e vida. O novo livro de Alexandre Faria chama-se I. Esse título alinha-se com o I, do clássico chinês I Ching. O termo, em chinês, traduz-se como mudança, transformação, mutação.

A mediação do programa desta semana é da jornalista Katy Navarro, da Casa de Leitura.




Idealizado a partir de um projeto da Casa da Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, o programa apresenta dois autores a cada semana. No próximo sábado, as convidadas são as escritoras Margarida Patriota e Nilma Lacerda. Conversa com o Autor vai ao ar todo sábado, na MEC AM, às 12h10.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Silêncio e caos, por Vilma Costa

Silêncio e caos

Vilma Costa

Resenha do livro Venta não, de Alexandre Faria publicado no jornal Rascunho, em novembro/2013.

Venta não, de Alexandre Faria, reúne noventa poemas subdivididos em dois grupos. O primeiro, “tudo muito sempre”, possui oitenta e um poemas. O segundo, “o pai era um”, agrupa os nove restantes, cada qual formado por nove versos. Há uma estrutura diferenciada entre os dois blocos, tanto do ponto de vista formal quanto de conteúdo semântico. A numeração desses textos, e não as páginas do livro, chama a atenção pelo rigor linear e crescente do primeiro bloco (1 a 81), enquanto os nove últimos se apresentam em ordem inversa (de 90 a 82). Podemos considerar que a ordem numérica quebrada com a segunda parte do livro, além de estabelecer um corte entre as duas, põe em questão a equação matemática. Sugere que o livro é para ser lido não apenas do início ao fim, mas do meio ao fim, do fim ao início, do fim ao meio — como deve ser lida qualquer intrigante coletânea de poesia.

Uma breve consulta virtual aponta a ligação com o livro chinês Tao te ching (O livro do caminho e da virtude), atribuído a Lao Tzi, uma das mais conhecidas e importantes obras da literatura da China, supostamente escrita entre 350 e 250 a.C. do calendário ocidental, dividida também em oitenta e um fragmentos e ensinamento filosóficos. Alguns destes elementos são re-semantizados, outros confrontados com questões contemporâneas e mesclados com novos conteúdos, ou reafirmados através do tempo, nesse aqui e agora. Homenagem, reinteração, paródia, pastiche? Talvez um pouco de tudo, ou nada disso. Sobrevivem nos poemas de Faria, além do número de capítulos da primeira parte, algumas questões sobre o tempo, a busca inútil de origem, a simplicidade, a contenção de paixões intempestivas, a crítica à pretensão de controlar o inexorável da vida. São também fragmentos sem títulos, sem letras maiúsculas (como no alfabeto chinês), econômicos de pontuação e conectivos.

Os poemas de “tudo muito sempre” carregam entre si uma estreita relação, mas se distanciam dos de “o pai era um”, como se o mesmo livro contivesse dois. Contudo, no seu conjunto a obra busca uma unidade. Do ponto de vista temático, há uma multiplicidade de questões que abordam conteúdos filosóficos, sociais, existenciais e estéticos — fundamentalmente humanos, demasiado humanos.

Sabedoria e silêncio. 

A leitura da primeira parte começa pela busca de um sujeito lírico que parece se esconder de sua individualidade através de uma voz coletiva. Esta, dirigindo-se a um interlocutor, paira, contém-se concisa, quebra a sintaxe e, conseqüentemente, priva-se por vezes da própria comunicação do que pretende dizer. Trata-se de uma dicção fragmentada pelos silêncios, não meras pausas, mas que funcionam como elementos estruturais dos textos. O primeiro desafio para ser encarado é a página em branco e, sobre ela, dar nome ao que vem desse vazio existencial ou natural que, filosoficamente, manifesta-se nessa voz, como que ausente de identidade pessoal. No poema 15: “como se tocasse/ o silêncio// a sintonia dos olhos/ não cabe na boca”; ou no 12: “(…) será também no vazio/ o gozo/ das coisas”.

É no vazio das páginas que o gozo da poesia se realiza. As palavras brincam, buscam-se e perdem-se na apologia do aquiagora, reincidente em muitos momentos, por um sujeito que se ausenta, exime-se, “e silencia/ dentadura na pele/ do infinito”. Afinal, “o mapa do tesouso/ silencia”. O que podemos cogitar é que esse sujeito lírico que tece sabedorias a um interlocutor desdobra-se nesse outro a quem se dirige. Antes do sábio que recomenda, é o humano que precisa do outro para se conter e seguir o caminho incerto desse aqui e agora do nosso tempo, consciente de sua condição.

que nada! sabe

Esta consciência, apesar de remeter à falsa modéstia colocada na boca de Sócrates — “Só sei que nada sei” —, representa uma convicção quanto ao tema: “sabedoria/ a avó analfabeta// o resto/ erudição e velhice”.

No único texto de “tudo muito sempre” em que o sujeito expressa-se em primeira pessoa, a questão também é colocada: “não sei/ não quero saber/ e vou aprendendo/ a não ter raiva/ de quem pensa / que sabe”.

Rede textual

Alexandre Faria não é estreante na produção poética, pelo contrário, atua regularmente em sites, saraus, oficinas de poesia, ensaios literários e magistério. O poema a seguir reporta-se a um outro livro do autor, Lágrima palhaça, que versa sobre o circo da vida, suas quedas e glórias: “palhaço chora// equilibrista/ trapezista/ malabares/ caem// leão devora/ domador// nesse circo// há glória/ também”.

Enquanto a primeira parte de Venta não prima pela concisão, a segunda é menos econômica, dando voz à fluência narrativa de um sujeito presente que se manifesta em primeira pessoa e ensaia até uma referência autobiográfica: “1970 (quando nasci) me implantaram o programa/ desde então frutifica cultivar a fé nos dados/ (…)/ mas defeito de fábrica humana falha/ durou menos que minha vida aquele chip”.

O tempo parece restringir-se ao agora, o que significa que o passado ficou para trás, são poucas reminiscências. O espaço é aqui, folha branca tentando dizer o indizível. Um agora contemporâneo imediato que se contrapõe ao tempo mítico e transcendental preservado e reincidente no tempo presente: o eterno retorno do mesmo, privilegiado no subtítulo dessa primeira parte: “tudo muito sempre”.

se eterno nunca se eterno onde? 

só o que é com aquiagora
Alguns poemas, se lidos separadamente, parecem herméticos demais, a começar pelo primeiro: “o que é com/ só/ aqui e agora// goza um enquanto// se insondável// nem sonhes”.

Mas se compreendidos como fios de uma mesma rede textual, incorporados aos outros, passam a somar a multiplicidade de sentidos que se entrecruzam neste tecido-texto em permanente tensão. Esta se estabelece em vários níveis, a começar pelo confronto filosófico ou cultural de pontos de vista orientais e ocidentais. “pois no princípio/ o silêncio/ demiurgo.” Mas no princípio não seria o verbo divino? Não necessariamente: “o verbo/ comprava barulho// silêncio a barganha/ da criação”.

Conflitam aí a precariedade do verbo e a teimosia poética compulsiva que atravessa o Lutador, lembrando Drummond: “lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos…”. A luta acontece também entre o erotismo e a necessidade de contensão dos impulsos, entre Dionísio e um Apolo predominante.

paixões são para errar a mão salgardem sempre(…)

Apesar de sugerir “(…) rasga a receita/ da paixão medida/ não há quem avise”, Apolo predomina com a recomendação de cautela: “limites: avança/ até serem teus/ então recolhe”.

Enquanto no taoísmo chinês tudo vem do vazio e o recolhimento é tranqüilo e natural, para o Apolo pagão e Ocidental a origem era o Caos e “a vida é luta renhida/ viver é lutar”. Segundo Nietzsche, o apolinismo grego teve de brotar de um fundo dionisíaco: “O grego dionisíaco tinha necessidade de se tornar apolíneo: isso significa quebrar sua vontade de descomunal, múltiplo, incerto, assustador, em sua vontade de medida, de simplicidade, de ordenação à regra e ao conceito”.

mas venta não ê meu povo guenta aí —(…)inventa não meu que o povo inda há de ververedas no garimpo da poesia nas favelas(…)

É só desse fundo dionísiaco que pode brotar a poesia, mesmo que a racionalidade filosófica o tente conter. Na vida e na arte, neste aqui e agora, uma lágrima palhaça cai no picadeiro do poeta, homem múltiplo e incerto que, apesar do “trágico desconcerto” de um “chip que deu pau”, ainda ama, ainda sonha.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Primeira edição da Oficina TextoTerritório/IFF vira livro

 Publicado originalmente em 

https://agencia.fiocruz.br/primeira-edi%C3%A7%C3%A3o-da-oficina-textoterrit%C3%B3rio-iff-vira-livro

Primeira edição da Oficina TextoTerritório/IFF vira livro

Irene Kalil

“São textos nos quais a arte de escrever e a arte de cuidar foram se ligando e se construindo aos poucos”. Assim, os editores da seleção de poemas e contos produzidos na primeira edição da Oficina de Criação Literária TextoTerritório/IFF, realizada em 2011, definem a obra, repleta de histórias comoventes vividas por 11 atores/autores envolvidos no cotidiano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A publicação, composta por 21 textos e belas imagens de autoria da fotógrafa Ana Marques, foi lançada nesta segunda-feira (1º/10), na sede da instituição, no Flamengo.







A riqueza das múltiplas experiências de quem trabalha no instituto, que há 88 anos atua em defesa da saúde materno-infantil, está presente em versos e na prosa de autores, muitas vezes, improváveis, como ressalta a psiquiatra do Serviço de Psicologia Médica Selene Afonso em sua autoapresentação: “No início, duvidei que eu, ‘escritora silvestre’, pudesse produzir, em forma e conteúdo, material que transmitisse as experiências com meus pacientes”. Mas é a mesma Selene que, em A quentinha, expressa com maestria como a relação entre médico e paciente é, antes de tudo, uma ligação entre duas pessoas, que engrandece tanto uma quanto outra.


Assim como ela, médicas, psicólogas, fonoaudiólogos, uma administradora, uma pedagoga, uma secretária e uma assistente social, funcionários ou voluntários do IFF, vão, pouco a pouco, demonstrando que, além de zelosos no cuidado das pessoas, são também capazes na escrita. Revelam-se escritores. A coordenadora do Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais (Napec), Magdalena Q. de Oliveira, por exemplo, assina três textos, um deles dedicado a contar a situação, vivida por ela, de levar crianças internadas no instituto à feira. Madá, como é conhecida, reconstrói todo o estranhamento vivido pelos pequenos, alguns deles que nunca haviam feito um único passeio na vida. Perguntas como “quem desenhou? [o céu com nuvens brancas]” desconcertaram a pedagoga como nos desconcertam, nós, leitores, transportados que somos pela força da literatura.


E a emoção transborda em diversos momentos da leitura, como em Quero um buraco para me esconder, de Antonio Carlos, que trata de uma mãe que, lutando com todos os recursos para poupar seu bebê de uma cirurgia delicada, faz cair por terra a intransigência do saber médico; ou em Cristina, escrito por Cynthia Magluta, que fala da inviabilidade da vida, sempre um desafio para a medicina, e do amor incondicional dos pais por sua filha, um bebê que já nasce sem chances de sobreviver.


Coordenada pelos escritores e professores Alexandre Faria e Oswaldo Martins, a Oficina de Criação Literária TextoTerritório/IFF, que iniciou sua segunda edição este ano, conta com o apoio da Diretoria de Recursos Humanos da Fiocruz (Direh) e do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO). Segundo seus idealizadores, a atividade busca associar a prática da escrita literária às experiências significativas de vida, entendendo a arte como elemento constitutivo da sociedade e do próprio ser humano. É esse enlace genuíno entre o escrever e o cuidar que vemos pulsar na poesia de Ana Marques, ao se colocar no lugar do outro, a criança assistida, traduzindo seu desejo: “Cansei de sol fluorescente / Ar condicionado e vento entubado / Não aguento mais / Quero o calor do teu colo / A doçura da tua voz / Me pega e me leva / Vamos dar uma volta no pátio”.


Os interessados poderão adquirir seu exemplar da publicação no local (R$ 10). A renda obtida com a venda será revertida para o Biblioteca Viva, projeto que promove a leitura em todos os espaços do instituto.

 

Publicado em 1º/10/2012.

Convocatória

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